Rate this poem:(0.00 / 0 votes)

O Soldado Espanhol

Antônio Gonçalves Dias 1823 (Caxias) – 1864 (Guimarães)



I

O céu era azul, tão meigo e tão brando,
E a terra era a noiva que bem se arreava
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa.

O céu era azul, e na cor semelhava
Vestido sem nódoa de pura donzela;
E a terra era a noiva que bem se arreava
De flores, matizes; mas vária, mas bela.

Ela era brilhante,
Qual raio do sol;
E ele arrogante,
De sangue espanhol.

E o espanhol muito amava
A virgem mimosa e bela;
Ela amante, ele zeloso
Dos amores da donzela;
Ele tão nobre e folgando
De chamar-se escravo dela!

E ele disse: — Vês o céu? —
E ela disse: — Vejo, sim;
Mais polido que o polido
Do meu véu azul cetim. —
Torna-lhe ele... (oh! quanto é doce
Passar-se uma noite assim!)

— Por entre os vidros pintados
D’igreja antiga, a luzir
Não vês luz? — Vejo. — E não sentes
De a veres, meigo sentir?
— É doce ver entre as sombras
A luz do templo a luzir!

— E o mar, além, preguiçoso
Não vês tu em calmaria?
— É belo o mar; porém sinto,
Só de o ver, melancolia.
— Que mais o teu rosto enfeita
Que um sorriso de alegria.

— E eu também acho em ser triste
Do que alegre, mais prazer;
Sou triste, quando em ti penso,
Que só me falta morrer;
Mesmo a tua voz saudosa
Vem minha alma entristecer.

— E eu sou feliz, como agora,
Quando me falas assim;
Sou feliz quando se riem
Os lábios teus de carmim;
Quando dizes que me adoras,
Eu sinto o céu dentro em mim.

— És tu só meu Deus, meu tudo.
És tu só meu puro amar,
És tu só que o pranto podes
Dos meus olhos enxugar. —
Com ela repete o amante:
— És tu só meu puro amar! —

E o céu era azul, tão meigo e tão brando
E a terra tão erma, tão só, tão saudosa
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa!

II

E o espanhol viril, nobre e formoso,
No bandolim
Seus amores dizia mavioso,
Cantando assim:

“Já me vou por mar em fora
Daqui longe a mover guerra,
Já me vou, deixando tudo,
Meus amores, minha terra.

“Já me vou lidar em guerras,
Vou-me à índia Ocidental;
Hei de ter novos amores...
De guerras... não temas ai.

“Não chores, não, tão coitada,
Não chores por t’eu deixar;
Não chores que assim me custa
O pranto meu sofrear.

“Não chores! - sou como o Cid
Partindo para a campanha;
Não ceifarei tantos louros,
Mas terei pena tamanha.”

E a amante que assim o via
Partir-se tão desditoso,
— Vai, mas volta; lhe dizia:
Volta, sim, vitorioso.

“Como o Cid, oh! crua sorte!
Não me vou nesta campanha
Guerrear contra o crescente,
Porém sim contra os d’Espanha!

“Não me aterram; porém sinto
Cerrar-se o meu coração,
Sinto deixar-te, meu anjo,
Meu prazer, minha afeição.

“Como é doce o romper d’alva,
É-me doce o teu sorrir,
Doce e puro, qual d’estrela
De noite — o meigo luzir.

“Eram meus teus pensamentos,
Teu prazer minha alegria,
Doirada fonte d'encantos,
Fonte da minha poesia.

“Vou-me longe, e o peito levo
Rasgado de acerba dor,
Mas comigo vão teus votos,
Teus encantos, teu amor!

“Já me vou lidar em guerras,
Vou-me à índia Ocidental;
Hei de ter novos amores...
De guerras... não temas ai.”

Esta era a canção que acompanhava
No bandolim,
Tão triste, que triste não chorava
Dizendo assim.

III

“Quero, pajens, selado o ginete,
Quero em punho nebris e falcão,
Qu’é promessa de grande caçada
Fresca aurora d’amigo verão.

“Quero tudo luzindo, brilhante
Curta espada e venáb’lo e punhal,
Cães e galgos farejem diante
Leve odor de sanhudo animal.

“E ai do gamo que eu vir na coutada,
Corça, onagro, que eu primo avistar!
Que o venáb’lo nos ares voando
Lhe há de o salto no meio quebrar.

“Eia, avante! — dizia folgando
O fidalgo mancebo, loução:
— Eía, avante! — e já todos galopam
Trás do moço, soberbo infanção.

E partem, qual do arco arranca e voa
Nos amplos ares, mais veloz que a vista,
A plúmea seta da entesada corda.
Longe o eco reboa; — já mais fraco,
Mais fraco ainda, pelos ares voa.
Dos cães dúbios o latir se escuta apenas,
Dos ginetes tropel, rinchar distante
Que em lufadas o vento traz por vezes.
Já som nenhum se escuta... Quê! — latido
De cães, incerto, ao longe? Não, foi vento
Font size:
 

Submitted on May 13, 2011

3:49 min read
121 Views

Antônio Gonçalves Dias

Antônio Gonçalves Dias was a Brazilian Romantic poet, playwright, ethnographer, lawyer and linguist. more…

All Antônio Gonçalves Dias poems | Antônio Gonçalves Dias Books

FAVORITE (1 fan)

Discuss this Antônio Gonçalves Dias poem with the community:

0 Comments

    Translation

    Find a translation for this poem in other languages:

    Select another language:

    • - Select -
    • 简体中文 (Chinese - Simplified)
    • 繁體中文 (Chinese - Traditional)
    • Español (Spanish)
    • Esperanto (Esperanto)
    • 日本語 (Japanese)
    • Português (Portuguese)
    • Deutsch (German)
    • العربية (Arabic)
    • Français (French)
    • Русский (Russian)
    • ಕನ್ನಡ (Kannada)
    • 한국어 (Korean)
    • עברית (Hebrew)
    • Gaeilge (Irish)
    • Українська (Ukrainian)
    • اردو (Urdu)
    • Magyar (Hungarian)
    • मानक हिन्दी (Hindi)
    • Indonesia (Indonesian)
    • Italiano (Italian)
    • தமிழ் (Tamil)
    • Türkçe (Turkish)
    • తెలుగు (Telugu)
    • ภาษาไทย (Thai)
    • Tiếng Việt (Vietnamese)
    • Čeština (Czech)
    • Polski (Polish)
    • Bahasa Indonesia (Indonesian)
    • Românește (Romanian)
    • Nederlands (Dutch)
    • Ελληνικά (Greek)
    • Latinum (Latin)
    • Svenska (Swedish)
    • Dansk (Danish)
    • Suomi (Finnish)
    • فارسی (Persian)
    • ייִדיש (Yiddish)
    • հայերեն (Armenian)
    • Norsk (Norwegian)
    • English (English)

    Citation

    Use the citation below to add this poem to your bibliography:

    Style:MLAChicagoAPA

    "O Soldado Espanhol" Poetry.com. STANDS4 LLC, 2022. Web. 29 Jan. 2022. <https://www.poetry.com/poem/3553/o-soldado-espanhol>.

    Become a member!

    Join our community of poets and poetry lovers to share your work and offer feedback and encouragement to writers all over the world!

    January 2022

    Poetry Contest

    Enter our monthly contest for the chance to win cash prizes and gain recognition for your talent.
    2
    days
    23
    hours
    31
    minutes

    Browse Poetry.com

    Quiz

    Are you a poetry master?

    »
    What's the oldest written poem exist?
    • A. Iliad
    • B. Odyssey
    • C. Epic of Gilgamesh
    • D. Ramayana